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Ainda me lembro !
Um pouco de historia sobre o “barco” e o RiO
Devo sublinhar
que nesta época existia no Peso, assim como noutras povoações vizinhas como
Alcaria, Barco,Silvares,Barroca do Zezere etc, uma embarcação que ligava as duas margens do Rio Zezere ás
povoaçoes do outro lado, neste caso ao Pesinho, para transporte de pessoas,
animais e mercadorias. Quando chegava a Primavera e o caudal do Zezere era mais
diminuto, eram postas umas tábuas, (passadeiras) no lugar onde hoje se situa a
Ponte, que em muitas ocasiões ainda eram levadas por alguma cheia imprevista
que ocorre-se, No caso do Peso, esse barco e o direito de exploração pertencia ao “ Passal” uma intituição ligada á Igreja .
Assim era “arrematado” o barco, nome dado ao
acto de arrematação para a exploração do mesmo
durante um ano. Dos grupos interessados que houvesse, a exploração seria
dada a quem mais oferecesse. Como havia e há uma grande afinidade familiar e
social entre os habitantes do Peso e Pesinho e a necessidade de ir ao Mercado e
Feiras do Fundão , vender ou comprar animais como suínos, jumentos gado caprino
e até juntas de bois, alem de se abastecerm de outros productos que só
encontravm no Fundão, como árvores ,
couves , sementes, etc, quase toda a gente pagava essa avença aos Barqueiros,
para poderem utilizar o barco. (Como tudo se modificou em uma ou duas décadas!)
Depois pela época
das colheitas esse homens que tinham ficado com a explorção do barco, iam de
porta em porta, no Peso e no Pesinho, cobrar uma certa quantidade de milho,
creio que um alqueire, medida de (20
litros) , ou mais tarde , azeite, quem não tivesse milho, para assim poder usar
o barco quando fosse necessário.
Quando aparecia
alguem de outra terra que precisa-se usar o barco, pagavam uma quantia, á
descrição.
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----Voltando ao
título, sei que era dia e Natal, teria eu os meus 10 a 12 anos
tinha chovido bastante
toda essa semana e o Rio começava a transbordar para os “lodeiros” nome dado, ás terras de cultivo
adjacentes ao Rio.
Como era dia de
Natal havia gente do Pesinho e Peso em ambas as partes do Rio e pela tarde,depois das visitas familiares,
seria o regresso ás suas terras. Entretanto como era habito muitas dessas
pessoas juntavam-se na zona central da povoação, onde existiam as tabernas,
unicos lugares onde as pessoas da aldeia
congregavam para socializar.
Assim ao fim da
tarde era frequente e considerado
normal, alguns sentiam os efeitos do alcool, demonstrando-o nas mais diverssas
formas.
Os “barqueiros”
eram normalmente bem tratados neste sentido e nunca lhes faltava a bebida
oferecida pelos utentes do barco, pois era conveniente ter sempre os “barqueiros
‘ na mão par se poder atravessar o rio quando necessitassem e sem muita demora. A dose habitual para estes
homens era os “meios/quartilhos” nome dado aos copos de ¼ de litro.
Se não podessem
beber na altura a bebida ficava paga para ser bebida noutra oportunidade.
Consequentemente ao fim da tarde ja teriam uma dose considerável de meios
–quartilhos, principalmente aos fins de semana e dias de mercado no Fundão,
(segundas feiras).
Mas entretanto o caudal do Zezere devido ás
chuvas que tinham caído durante a semana quase sem cessar, continuava a
aumentar considerávelmente, quase sem as pessoas darem por isso. E ao caír da
tarde quando queriam regressar ás suas
cassas procuravam os “barqueiros” para a passagem ao outro lado. Entretanto
estes, já tinham mudado o barco do paredão das “tábuas”, onde normalmente
estava ancorado, para o paredão da “pontaria” mais acima, mas a uns 100 a 150
metros desviado do leito do rio amarrdo a uma arvore , pois junto ao leito
tornava-se perigoso, por o paredão começar a estar coberto de agua. Entretanto
durante a manha já alguem tinha gritado do lado do Pesinho
Hó... Barqueiro!
Era assim que se comunicava oralmente duma margem para a outra , não havia
telefone. Ainda me lemnbro..., ao fim da tarde fui a casa dos meus avós
maternos (no Adro da Igreja) e daí pude ver com mais precisão toda a extensão
da cheia.
Ainda me lembro
perfeitamente de todo aquele barulho arrasador (soada) como lhe chamavam que as
aguas do Zezere faziam naquela situação de cheia.
As mesmas tinham
chegado à estrada do Peso e do outro lado à fonte do Pesinho que estava
parcialmente submersa
Aliás foi dessa visão da cheia e desse zuzurrar assustador e defiante do Zezere que, ainda jovem, me ficaram na memória as bases para esta crónica.
Com o movimento habitual desta data festiva, nem
barqueiros nem passageiros utentes do barco, se davam conta do perigo que
poderia resultar o atravessamento do Zezere.
Avaliando as
circunstancias hoje, confeço que era preciso ter coragem ...(ou efeitos de
alguns copos) para se aproximarem do
leito do Rio naquelas condições.
Assim os
barqueiros Joaquim Augusto e Jose Cortiça, este ultimo natural do Barco mas
casado no Peso, apelido este de Cortica , vinha-lhe do facto de ser destemido
para o rio . Como a cortiça nunca ia ao fundo, daí o nome porque era conhecido.
Assim lá foram
esses 4 ou 5 homens, ignorando todos os perigos, tentar a travessia do Zezere. Lembro-me de algumas pessoas se
concentrarem em lugares para observar esta tentativa de travessia do Rio , pois
obviamente receavam o pior.
E fez-satrave
ssiae da seguinte maneira.
Começaram, por
levar o barco ao longo do paredão, para se aproximarem do leito do rio .
Aqui trocaram as váras, normalmente usadas para
chegarem ao fundo do rio, pelos remos, pois as váras, que teriam
aproximadamente uns 5 metros não chegavam ao fundo do leito. Por aqui poderemos
avaliar a fundura que o Rio levava.
Puchando o barco para cima o mais possivel, foram deixando descair o mesmo, ao
mesmo tempo remando contra a corrente e tentando segurar a prôa (frente) do
barco sempre para nascente, assim o barco foi puchado para a margem do Pesinho,
até que se aproximou das margens da outra banda, mas vindo parár cá para abaixo mesmo frente ao sitio dos Barros,
levando-o em seguida pelos lodeiros até mesmo ao fundo do Pesinho. O barco não
regresou ao Peso esse dia, mas sim no dia seguinte com as aguas já a baixar.
O Zezere tinha
sido vencido mais uma vez por este punhado
de homens destemidos e habituados aos perigos do mesmo..
Quero recordar
uma nota trágica, em que o Zezere nem sempre era transposto com segurança.. Foi
por alturas de 1958/59 em que na travessia de Alcaria para o Dominguiso,
numa segunda
feira de Inverno, já noite cerrada , um grupo de jovens raparigas dos Vales do
Rio, que trabalhavam numa fabrica de colchões em Alcaria, ao regressarem a casa
depois de um dia de trabalho, ao chegarem à margem direita o barco foi de
embater um tronco de arvore parcialmente coberto de agua e com o balanço do
choque, duas jovens foram cuspidas para as aguas e nunca mais foram vistas. A
tragédia tinha acontecido e o povo dos Vales do Rio correu aos gritos com
lampeões e outras luzes que puderam arranjar e indiferente à chuva que caía
copiosamente e tinha caido todo o dia, dirigiu-se para as margens do rio sem
saber exactamente o que tinha acontecido e quem tinha desaparecido. Ja era
tarde de mais para que alguma ajuda fosse util., pois as duas jovens tiham
desaparecido, para serem encontradas, uma, dias depois para os lados das
margens da Coutada e a outra algumas semanas mais tarde, cá para as bandas de
Dornelas do Zezere.
Eu lembro-me...
eu estava nos Vales do Rio, conhecia bem estas jovens que o Zezere roubou tão
tragicamente na sua juventude e assisti
a estes momentos trágicos das familias a quem
estes ente queridos tinham sido tragados pelas aguas impetuosas do
Zezere.
Este Rio que
trazia riqueza a estes povos pelas terras que banhava, trouxe tambem a
tragédia. Aqui a refiro para que não
cáia no esquecimento das gerações viventes.
Peço desculpa em
mencionar alguns nomes pelos apelidos (alcunhos) pois não sei outros.
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Cartas escritas para o Jornl do Fundao, duranta alguns anos
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