Peso Terra Natal

Peso Terra Natal

domingo, 9 de abril de 2023

 

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                                                Ainda me lembro !

                                                    As cheias do Zezere  ~


Um pouco de historia sobre o “barco” e o RiO

Devo sublinhar que nesta época existia no Peso, assim como noutras povoações vizinhas como Alcaria, Barco,Silvares,Barroca do Zezere etc, uma embarcação  que ligava as duas margens do Rio Zezere ás povoaçoes do outro lado, neste caso ao Pesinho, para transporte de pessoas, animais e mercadorias. Quando chegava a Primavera e o caudal do Zezere era mais diminuto, eram postas umas tábuas, (passadeiras) no lugar onde hoje se situa a Ponte, que em muitas ocasiões ainda eram levadas por alguma cheia imprevista que ocorre-se, No caso do Peso, esse barco e o direito de exploração pertencia  ao “ Passal” uma intituição ligada á Igreja .

 Assim era “arrematado” o barco, nome dado ao acto de arrematação para a exploração do mesmo  durante um ano. Dos grupos interessados que houvesse, a exploração seria dada a quem mais oferecesse. Como havia e há uma grande afinidade familiar e social entre os habitantes do Peso e Pesinho e a necessidade de ir ao Mercado e Feiras do Fundão , vender ou comprar animais como suínos, jumentos gado caprino e até juntas de bois, alem de se abastecerm de outros productos que só encontravm no Fundão, como  árvores , couves , sementes, etc, quase toda a gente pagava essa avença aos Barqueiros, para poderem utilizar o barco. (Como tudo se modificou em uma ou duas décadas!)

Depois pela época das colheitas esse homens que tinham ficado com a explorção do barco, iam de porta em porta, no Peso e no Pesinho, cobrar uma certa quantidade de milho, creio que um alqueire,  medida de (20 litros) , ou mais tarde , azeite, quem não tivesse milho, para assim poder usar o barco quando fosse necessário.

Quando aparecia alguem de outra terra que precisa-se usar o barco, pagavam uma quantia, á descrição.

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----Voltando ao título, sei que era dia e Natal, teria eu os meus 10 a 12 anos

tinha chovido bastante toda essa semana e o Rio começava a transbordar para os  “lodeiros” nome dado, ás terras de cultivo adjacentes ao Rio.

Como era dia de Natal havia gente do Pesinho e Peso em ambas as partes do Rio  e pela tarde,depois das visitas familiares, seria o regresso ás suas terras. Entretanto como era habito muitas dessas pessoas juntavam-se na zona central da povoação, onde existiam as tabernas, unicos lugares onde as pessoas da aldeia  congregavam para socializar.

Assim ao fim da tarde  era frequente e considerado normal, alguns sentiam os efeitos do alcool, demonstrando-o nas mais diverssas formas.

Os “barqueiros” eram normalmente bem tratados neste sentido e nunca lhes faltava a bebida oferecida pelos utentes do barco, pois era conveniente ter sempre os “barqueiros ‘ na mão par se poder atravessar o rio quando necessitassem e  sem muita demora. A dose habitual para estes homens era os “meios/quartilhos” nome dado aos copos de ¼ de litro.

Se não podessem beber na altura a bebida ficava paga para ser bebida noutra oportunidade. Consequentemente ao fim da tarde ja teriam uma dose considerável de meios –quartilhos, principalmente aos fins de semana e dias de mercado no Fundão, (segundas feiras).

 Mas entretanto o caudal do Zezere devido ás chuvas que tinham caído durante a semana quase sem cessar, continuava a aumentar considerávelmente, quase sem as pessoas darem por isso. E ao caír da tarde quando  queriam regressar ás suas cassas procuravam os “barqueiros” para a passagem ao outro lado. Entretanto estes, já tinham mudado o barco do paredão das “tábuas”, onde normalmente estava ancorado, para o paredão da “pontaria” mais acima, mas a uns 100 a 150 metros desviado do leito do rio amarrdo a uma arvore , pois junto ao leito tornava-se perigoso, por o paredão começar a estar coberto de agua. Entretanto durante a manha já alguem tinha gritado do lado do Pesinho

Hó... Barqueiro! Era assim que se comunicava oralmente duma margem para a outra , não havia telefone. Ainda me lemnbro..., ao fim da tarde fui a casa dos meus avós maternos (no Adro da Igreja) e daí pude ver com mais precisão toda a extensão da cheia.

Ainda me lembro perfeitamente de todo aquele barulho arrasador (soada) como lhe chamavam que as aguas do Zezere faziam naquela situação de cheia.

As mesmas tinham chegado à estrada do Peso e do outro lado à fonte do Pesinho que estava parcialmente submersa

Aliás foi dessa visão da cheia e desse zuzurrar assustador e defiante do Zezere que, ainda jovem, me ficaram na memória as bases para esta crónica.

Com  o movimento habitual desta data festiva, nem barqueiros nem passageiros utentes do barco, se davam conta do perigo que poderia resultar o atravessamento do Zezere.

Avaliando as circunstancias hoje, confeço que era preciso ter coragem ...(ou efeitos de alguns copos)  para se aproximarem do leito do Rio naquelas condições.

Assim os barqueiros Joaquim Augusto e Jose Cortiça, este ultimo natural do Barco mas casado no Peso, apelido este de Cortica , vinha-lhe do facto de ser destemido para o rio . Como a cortiça nunca ia ao fundo, daí o nome porque era conhecido.

Assim lá foram esses 4 ou 5 homens, ignorando todos os perigos, tentar a travessia  do Zezere. Lembro-me de algumas pessoas se concentrarem em lugares para observar esta tentativa de travessia do Rio , pois obviamente receavam o pior.

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e da seguinte maneira.

Começaram, por levar o barco ao longo do paredão, para se aproximarem do leito do rio .

Aqui  trocaram as váras, normalmente usadas para chegarem ao fundo do rio, pelos remos, pois as váras, que teriam aproximadamente uns 5 metros não chegavam ao fundo do leito. Por aqui poderemos avaliar  a fundura que o Rio levava. Puchando o barco para cima o mais possivel, foram deixando descair o mesmo, ao mesmo tempo remando contra a corrente e tentando segurar a prôa (frente) do barco sempre para nascente, assim o barco foi puchado para a margem do Pesinho, até que se aproximou das margens da outra banda, mas vindo parár cá  para abaixo mesmo frente ao sitio dos Barros, levando-o em seguida pelos lodeiros até mesmo ao fundo do Pesinho. O barco não regresou ao Peso esse dia, mas sim no dia seguinte com as aguas já a baixar.

O Zezere tinha sido vencido mais uma vez por este punhado  de homens destemidos e habituados aos perigos do mesmo..

Quero recordar uma nota trágica, em que o Zezere nem sempre era transposto com segurança.. Foi por alturas de 1958/59 em que na travessia de Alcaria para o Dominguiso,

numa segunda feira de Inverno, já noite cerrada , um grupo de jovens raparigas dos Vales do Rio, que trabalhavam numa fabrica de colchões em Alcaria, ao regressarem a casa depois de um dia de trabalho, ao chegarem à margem direita o barco foi de embater um tronco de arvore parcialmente coberto de agua e com o balanço do choque, duas jovens foram cuspidas para as aguas e nunca mais foram vistas. A tragédia tinha acontecido e o povo dos Vales do Rio correu aos gritos com lampeões e outras luzes que puderam arranjar e indiferente à chuva que caía copiosamente e tinha caido todo o dia, dirigiu-se para as margens do rio sem saber exactamente o que tinha acontecido e quem tinha desaparecido. Ja era tarde de mais para que alguma ajuda fosse util., pois as duas jovens tiham desaparecido, para serem encontradas, uma, dias depois para os lados das margens da Coutada e a outra algumas semanas mais tarde, cá para as bandas de Dornelas do Zezere.

Eu lembro-me... eu estava nos Vales do Rio, conhecia bem estas jovens que o Zezere roubou tão tragicamente na sua juventude  e assisti a estes momentos trágicos das familias a quem  estes ente queridos tinham sido tragados pelas aguas impetuosas do Zezere.

Este Rio que trazia riqueza a estes povos pelas terras que banhava, trouxe tambem a tragédia.  Aqui a refiro para que não cáia no esquecimento das gerações viventes.

 Nomes dos Barqueiros mais conhecidos. Joaquim Augusto , Jose Cortiça, Antonio Pereira, seu filho Joaquim Pereira, Jose Travanca,

Peço desculpa em mencionar alguns nomes pelos apelidos (alcunhos) pois não sei outros.


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              Cartas escritas para o Jornl do Fundao, duranta alguns anos


           

                                    

                                      




 
 

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