Peso Terra Natal

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domingo, 25 de novembro de 2012

                               *   Recordaçôes de infancia   *    Peso 1946  *
                                     
                                                         

Foi á muitos anos atráz… 
quando a minha  memória começou a fixar as coisas que via, talvez á volta dos meus 5 ou 6 anos.
Lembro-me que era uma manhã risonha, com orvalhada,  mas com sol quentinho.
Tinha dormido em casa dos meus avós maternos, o que fazia frequentemente, pois eu era o seu primeiro neto. Ainda me lembro… o meu avô aparelhou um jumento que tinha, com uma tosca albarda, e pôs-me cima do animal, mesmo em frente á Igreja, onde moravam e resolveu levar-me com ele. Foi a primeira vêz que montei num animal , por tão longa viagem.  Fomos até ao sítio do Barrocão ou Barroca das Canas, não posso precisar, hà volta de 5 ou 6 km, pelos velhos caminhos de então, por meio de pinhal e mato, uma verdadeira aventura para uma criança da minha idade; talvês daí a razão do que vou contar e eis o principal cenário  que continua vivo na minha mente e o motivo por que escrevo esta crónica.
Ainda me lembro… que ao saír do povoado, no sítio dos Barreiros, quando os casebres da minha aldeia, (sim ... casebres) na altura chamavamos-lhe casas, já tinham ficado para traz  e comecei a avistar a natureza. Ao meu lado esquerdo, pinhais; ao meu lado direito, o sol que hà pouco tinha nascido, as vinhas, um chão de  terra cultivado que por sinal era de meu avô paterno e houvi o canto das aves naquela manhã, que (hoje sei) era de Primavera, ainda me lembro… do caminho marcado pelos fundos  rodados dos carros de bois; e gostei tanto daquela paisagem e daquele contacto com a natureza, que não sei porquê, as minhas retinas de criança, fixaram e gravaram para sempre na minha memória, aquele cenário, para o resto da minha vida. Na minha mente de criança, penso hoje, se existe o paraíso, seria aquela paisagem,aquele envolvimento com a natureza,naquele ambiente rural, naquela idade do desabrocharpara a vida…visto por uma criança.
Como eu gostaria de saber transmitir numa tela, estas imagens de infancia que ainda guardo na minha mente.   Ao houvir os diferentes cantos das aves, perguntava ao meu avô e ele me dizia… é o rouxinol, é o pintassilgo, etc, isto ao longo dos olivais e terras de cultivo.Ao avançar para os pinhais,o canto das aves já era outro; o cuco e o gáio, este ultimo lembro-me ter visto alguns… de criança, não talvês nesta minha primeira aventura, pois na minha memória ficou mais acentuada aquela  imagem da saída da povoação e o contacto com o espaço aberto e para mim, grandioso da natureza.
Não me lembro muito do resto da jornada, apenas que o animal comia umas folhas de milho sêco (canas, como lhe chamavam na minha aldeia) que o meu avô tinha levado entaladas na albarda do animal. 
 A mim, deu-me tambem qualquer coisa  para  comer que minha avó me tinha mandado.                      Ainda  me lembro… que ficamos num pequeno talhão de terra  de cultivo, á beira do Ribeiro, que hoje sei é o do Braçal, que nasce a centenas de metros na serra que chamamos  Penesinhos. 


Ribeiro do Braçal - sítio da Azênha

 
Hoje… percorrendo o mesmo trajecto (paraíso) de á  55 anos, o que fiz á alguns anos atraz, o caminho hoje é rua, é diferente; desapareceram os vestígios dos animais de carga e os rodados dos carros de bois, as casas hoje podem-se chamar casas, (não casebres) mais bonitas e confortáveis, mas  as  aves… essas desapareceram; o seu cantar foi substituído pelo som da rádio e as terras que outrora estavam bem cultivadas, qual jardim do paraíso estão abandonadas; e na montanha, o pinhal oferece uma imagem desoladora; paisagem de terra queimada, (dos fogos do verão).    O paraíso da minha infancia, da memória  a desabrochar para o mundo, como aquela manhã de Primavera…desapareceram… mas enquanto eu viver, ainda me lembro…
Á coisas que nunca esquecem… e outras por serem das primeiras  que o nosso cérebro guarda, quando começamos a tomar conciencia do que existe á nossa beira, ficam-nos gravadas para sempre nessa calculadora maravilhosa a que chamamos memória vão e vêm à  nossa mente para o resto da nossa vida. Esta é uma delas.
Ainda me lembro… nas horas de nostálgia… cá longe… na  emigração.
    
 Belarmino D. Batista. 08/1978                                                                                                         



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