Ainda me Lembro!!!
..... das tradições da tecelagem
no Peso.
Segundo houvia dizer aos meus avós desde tempos antigos que
havia no Peso quem se dedica-se á tecelagem de cobertores, lençois de linho e
mantas de ambito artesanal.
Com o advento das fabricas
de lanifícios no Tortosendo, (a Covilhã já ficava longe…naquela época) as gentes da aldeia começaram a trabalhar na
tecelagem , para essas mesmas fabricas, indo buscar as matérias primas necessárias
para depois fazerem o trabalho em casa . Novos teares, (só de um pano) assim
lhe chamavam aos teares maiores, foram adquiridos por muitas pessoas da aldeia
e assim começava uma nova éra para muitos, uma nova vida que lhes garantia o
sustento da família.
Assim eram trazidas grandes
meadas de fio que depois eram estendidas num grande estendedouro, (ordedouro assim
lhe chamavam, a grandes barras de ferro, não tão grandes no tamanho, das
balizas do futebol ) que iam desde a estrada do Cabouico ao cimo do Carrascal,
ao longo do extremo Poente da escola da D.a Blandina, assim era conhecida a
mesma.
Essas grandes meadas de fio eram (julgo ) transformadas em mais pequenas par serem passadas numa dobadeira para depois serem transferidas para um “canudo” que seria depois usado na lançadeira do tear . Estes trabalhos secundarios eram quase exclusivos das mulheres. Depois do trabalho estar completo o tecido, era levado á fabrica para receberem o pagamento e trazer outro trabalho. (se o houvesse)
Quem passá-se pelas ruas da aldeia, poderia houvir o matraquear dos teares a qualquer hora do dia ou da noite.Existia um barracão, assim se chamava uma série de palheiros que iam desde a casa actual do Sr.João Sardinha até á area onde estão os tanques, lavadouros publicos e aí estavam instalados uns quantos teares, 4 ou 5 não posso precisar onde havia sempre gente a trabalhar até altas horas da noite e manhã cêdo.
Era esta a vida de muitos habitantes do Peso, até princípios da década de 1960.Devo salientar que estas mercadorias eram transportadas ás costas ou em jumentos,
-(O Ti Zé Aires tinha um
burro, rijo e dócil que era nessa altura
como que o táxi da aldeia)- pelo caminho da “Serra”que seguia do cimo dos Vales
do Rio, até ao fundo do Cabeço do Tortosendo. Estes teares ,instrumentos de
trabalho, eram registados num Departamento Governamental, cujo nome não me
lembro e lhes garantia um alvará que
mais tarde foram valorizados , pois ao fazer-se a reconverssão da
industria de lanifícios , de manual para
automatica, eram necessário aos industriais de lanificios, obter três alvarás
de teares manuais para um tear electrico. E assim foram adquiridos muitos, ou
quase todos, a um preço que ia desde os 12 mil escudos aos 20 mil , conforme a
procura; uma pequena fortuna nessa época.
Depois começou a ser ”descoberta”a emigração para França e igualmente a reconverção dos tearers manuais para eléctricos, automáticos como lhe chamavam e assim muitos começaram a deixar a industria de tecelagem manual. Alguns foram aprender a trabalhar com os novos teares e aranjaram trabalho no Tortosendo e Covilhã, para onde iam todos os dias de bicicleta. Eram notórios os grupos de tecelões que especialmente do Peso, Coutada e Dominguiso, enchiam a estrada, (ainda de maquedame) e se houviam á distancia, falando uns para os outros.
Fazendo este trajecto,
infelizmente alguns conterrãneos nossos
encontraram a morte na estrada,
Com esta mudança para o
progresso iria acabar uma industria para as aldeias do Rio e não só, pois
outras limítrofes como o Teixoso, Aldeia do Carvalho, Sarzedo,Ferro, Peraboa
etc, havia muita gente a trabalhar nesta industria.
Fernando Madeira
No caso do Peso, houve outra reconversão: os que não seguiram para França tão depressa, ou já pela idade mais avançada, lançaram mão á tecelagem de mantas de trapos. O Peso chegou a ser a terra com mais gente a trabalhar neste sector artesanal em todo o distrito, ou até talvez em todo o país. Senão vejamos; a area de domínio das gentes do Peso extendi-se a todo o distrito de Castelo Branco, área de Alcains, a partes do da Guarda, área do Sabugal e Coimbra, como Barroca do Zezere, Vasco Esteves, Loriga, etc.
Eu próprio como proprietário do automovel de
aluguer (taxi) da aldeia, na altura percorri todos estes percursos no
transporte dessas mantas, em toda a década de 1960 e at á minha emigração em
fins de 1973.
De salientar que cada pessoa
tinha a suas localidades, que na maioria dos casos era respeitada, não fazendo
concorrencia uns aos outros.
Com o envelhecimento dos mesmos e a emigração para França, esta actividade foi-se desvanecendo até á sua extinção. Assim se vira mais uma pagina da historia do Peso.
É pena que não tivesse ficado um pequeno museu com todos os artefactos desta industria,(tecelagem) para que as gerações vindouras pudessem apreciar.
Instrumentos da tecelagem
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