Peso Terra Natal

Peso Terra Natal

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

                                                                                                                                       Ainda me Lembro!!!

                                                  ..... das tradições da tecelagem no Peso.

Segundo houvia  dizer aos meus avós desde tempos antigos que havia no Peso quem se dedica-se á tecelagem de cobertores, lençois de linho e mantas de ambito artesanal.

Com o advento das fabricas de lanifícios no Tortosendo, (a Covilhã já ficava longe…naquela época) as  gentes da aldeia começaram a trabalhar na tecelagem , para essas mesmas fabricas, indo buscar as matérias primas necessárias para depois fazerem o trabalho em casa . Novos teares, (só de um pano) assim lhe chamavam aos teares maiores, foram adquiridos por muitas pessoas da aldeia e assim começava uma nova éra para muitos, uma nova vida que lhes garantia o sustento da família.

Assim eram trazidas grandes meadas de fio que depois eram estendidas num grande estendedouro, (ordedouro assim lhe chamavam, a grandes barras de ferro, não tão grandes no tamanho, das balizas do futebol ) que iam desde a estrada do Cabouico ao cimo do Carrascal, ao longo do extremo Poente da escola da D.a Blandina, assim era conhecida a mesma.

Essas grandes meadas de fio eram (julgo ) transformadas em mais pequenas par serem passadas numa dobadeira  para depois serem  transferidas para um “canudo” que seria depois usado na lançadeira do tear . Estes trabalhos secundarios eram quase exclusivos das mulheres.               Depois do trabalho estar completo o tecido, era levado á fabrica para receberem o pagamento e trazer outro trabalho. (se o houvesse) 

Quem passá-se pelas ruas da aldeia, poderia houvir o matraquear dos teares a qualquer hora do dia ou da noite.Existia um barracão, assim se chamava uma série de palheiros que iam desde a casa actual do Sr.João Sardinha até á area onde estão os tanques, lavadouros publicos e aí estavam instalados uns quantos teares, 4 ou 5 não posso precisar onde havia sempre gente a trabalhar até altas horas da noite e manhã cêdo.

 Era esta a vida de muitos habitantes do Peso, até princípios da década de 1960.Devo salientar que estas mercadorias eram transportadas ás costas ou em jumentos,

-(O Ti Zé Aires tinha um burro, rijo e dócil  que era nessa altura como que o táxi da aldeia)- pelo caminho da “Serra”que seguia do cimo dos Vales do Rio, até ao fundo do Cabeço do Tortosendo. Estes teares ,instrumentos de trabalho, eram registados num Departamento Governamental, cujo nome não me lembro e lhes garantia um alvará que  mais tarde foram valorizados , pois ao fazer-se a reconverssão da industria de lanifícios , de manual  para automatica, eram necessário aos industriais de lanificios, obter três alvarás de teares manuais para um tear electrico. E assim foram adquiridos muitos, ou quase todos, a um preço que ia desde os 12 mil escudos aos 20 mil , conforme a procura; uma pequena fortuna nessa época.

 Depois começou a ser ”descoberta”a emigração para França e igualmente a reconverção dos tearers manuais para eléctricos, automáticos como lhe chamavam e assim muitos começaram a deixar a industria de tecelagem manual. Alguns foram aprender a trabalhar com os novos teares e aranjaram trabalho no Tortosendo e Covilhã, para onde iam todos os dias de bicicleta. Eram notórios os grupos de tecelões que especialmente do Peso,  Coutada e Dominguiso, enchiam a estrada, (ainda de maquedame) e se houviam á distancia, falando uns para os outros.

Fazendo este trajecto, infelizmente  alguns conterrãneos nossos encontraram a morte na estrada,

Com esta mudança para o progresso iria acabar uma industria para as aldeias do Rio e não só, pois outras limítrofes como o Teixoso, Aldeia do Carvalho, Sarzedo,Ferro, Peraboa etc, havia muita gente a trabalhar nesta industria.


                                                              Fernando Madeira

No caso do Peso, houve outra reconversão: os que não seguiram para França tão depressa, ou já pela idade mais avançada, lançaram mão á tecelagem de mantas de trapos. O Peso chegou a ser a terra com mais gente a trabalhar neste sector artesanal em todo o distrito, ou até talvez em todo o país.  Senão vejamos; a area de domínio das gentes do Peso extendi-se a todo o distrito de Castelo Branco, área de Alcains, a partes do da Guarda, área do Sabugal e Coimbra, como Barroca do Zezere, Vasco Esteves, Loriga, etc.

 Eu próprio como proprietário do automovel de aluguer (taxi) da aldeia, na altura percorri todos estes percursos no transporte dessas mantas, em toda a década de 1960 e at á minha emigração em fins de 1973.

De salientar que cada pessoa tinha a suas localidades, que na maioria dos casos era respeitada, não fazendo concorrencia uns aos outros.

Com o envelhecimento dos mesmos e a emigração para França, esta actividade foi-se desvanecendo até á sua extinção.  Assim se vira mais uma pagina da historia do Peso.

É pena que não tivesse ficado um pequeno museu com todos os artefactos desta industria,(tecelagem) para que  as gerações vindouras pudessem apreciar.

                                               Instrumentos  da tecelagem


 

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